4 semanas ago · Updated 4 semanas ago
O Brasil aproveita atualmente menos de 2% do seu potencial de biogás da cana, volume que poderia gerar 41,2 bilhões de metros cúbicos anuais e substituir cerca de 41 bilhões de litros de diesel. Os dados foram revelados por um estudo encomendado pelo Instituto MBCBrasil, focado na descarbonização do transporte pesado.
O levantamento internacional, intitulado "Do Resíduo às Rodas", foi conduzido por pesquisadores de instituições como USP, Unifei, Instituto Agronômico de Campinas e Instituto Mauá de Tecnologia. Segundo José Eduardo Luzzi, presidente do conselho de administração do Instituto MBCBrasil, a tecnologia de biodigestão já é comercialmente madura no país, mas a expansão depende da superação de gargalos estruturais e regulatórios.
Apesar do baixo aproveitamento geral, projetos operacionais em usinas de São Paulo e Mato Grosso do Sul comprovam a viabilidade comercial do combustível renovável. Fora do setor sucroenergético, o destaque fica para a cidade de Paulínia, no interior paulista, que inaugurou o maior aterro sanitário focado na produção de biometano, reforçando o papel da região na transição energética e na economia circular.
| O que acontece | Quando | Onde | Por que importa |
|---|---|---|---|
| Subaproveitamento do biogás | Safra 2024/2025 | Brasil | Capacidade de substituir 41 bilhões de litros de diesel |
| Inauguração de aterro sanitário | Setembro de 2026 | Paulínia (SP) | Geração de até 225 mil Nm³/dia de biometano |
Desafios para a expansão do biometano
Embora o setor sucroenergético tenha processado cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar apenas na safra 2024/2025, gerando 380 bilhões de litros de vinhaça, a transformação desse resíduo em energia esbarra em limitações técnicas e de mercado. A concentração relativamente baixa de carbono orgânico na vinhaça isolada exige a combinação com outros resíduos, como a torta de filtro, para otimizar o rendimento do metano.
De acordo com os especialistas envolvidos no estudo, o principal entrave não é a falta de biomassa ou de tecnologia disponível. A criação de um mercado robusto para o combustível renovável depende de fatores externos às usinas. Entre os principais desafios listados estão:
- Infraestrutura e distribuição: Necessidade de redes adequadas para escoar a produção.
- Acesso a financiamento: Linhas de crédito específicas para projetos de biodigestão.
- Previsibilidade regulatória: Regras claras para incentivar investimentos de longo prazo.
O papel de Paulínia e outras iniciativas
Enquanto as usinas buscam equacionar esses gargalos, outras frentes de produção de biometano ganham força. Em Paulínia (SP), a inauguração do maior aterro sanitário do tipo marca um avanço significativo. A instalação possui capacidade nominal para produzir até 225 mil Nm³/dia, utilizando resíduos urbanos em vez de subprodutos agrícolas.
A diversificação das fontes de energia também reflete um movimento mais amplo no mercado de combustíveis. Enquanto o biometano avança no interior paulista, outras regiões investem em infraestrutura fóssil de transição, como o recente acordo para um terminal terrestre de GNL no Rio Grande do Sul, demonstrando a pluralidade da matriz energética nacional.
Impactos na economia circular e saúde pública
O biometano, produzido a partir da biodigestão de vinhaça, dejetos animais, lixo urbano e esgoto, oferece benefícios que vão além da substituição do diesel em veículos pesados. A tecnologia permite uma redução de até 90% nas emissões de gases de efeito estufa, dependendo da matéria-prima utilizada no processo.
Além de Goiânia (GO), que já anunciou a conversão de sua frota de ônibus urbanos para rodar com o combustível renovável, a expectativa é que o modelo adotado no aterro de Paulínia e nas usinas paulistas sirva de exemplo. A consolidação dessa cadeia produtiva fortalece a economia circular, transformando passivos ambientais em ativos energéticos de alto valor agregado.
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